Para minha filha amada, adorada que
sempre estará dentro de meu coração, Morgana. Após todos esses anos juntas, Deus levou minha princesa para que ela não mais
sofresse com a doença já avançada.
Agradeço a Deus por ter me permitido ser
mãe da criatura mais meiga, doce, amorosa, linda, ranzinza, temperamental às
vezes, mas acima de tudo do ser humano mais maravilhoso do universo.
Morgana, EU TE AMO para sempre. Você foi,
é e sempre será minha princesa adorada.
Guardo tuas cinzas no lugar que adoravas
ficar, no meio das minhas roupas. Amo-te demais. Aguardo ansiosa
o dia em que vamos nos reencontrar seja na terra ou no céu, eu sei que
vamos ficar juntas para sempre e eu poderei novamente te apertar até você
reclamar. Siga seu caminho em paz, amor da minha vida, pois mamãe está contigo
o tempo todo. Deus te abençoe, filha adorada.

ODE AO GATO
(Artur da Távola)
Bichos polêmicos sem o
querer, porque sábios, mas inquietantes, talvez por isso.
Nada é mais incômodo que
o silencioso bastar-se dos gatos. O só pedir a quem amam. O só amar a quem os
merece.
O homem quer o bicho
espojado, submisso, cheio de súplica, temor, reverência, obediência. O gato não
satisfaz as necessidades doentias do amor. Só as saudáveis.
Lembrei, então, de dizer,
dos gatos, o que a observação de alguns anos me deu. Quem sabe, talvez, ocorra
o milagre de iluminar um coração a eles fechado? Quem sabe, entendendo-os
melhor, estabelece-se um grau de compreensão, uma possibilidade de luz e vida
onde há ódio e temor? Quem sabe São Francisco de Assis não está por trás do
Mago Merlin, soprando-me o artigo?
Já viu gato amestrado, de
chapeuzinho ridículo, obedecendo às ordens de um pilantra que vive às custas
dele? Não! Até o bondoso elefante veste saiote e dança a valsa no circo. O leal
cachorro no fundo compreende as agruras do dono e faz a gentileza de ganhar a
vida por ele. O leão e o tigre se amesquinham na jaula. Gato não. Ele só aceita
uma relação de independência e afeto. E como não cede ao homem, mesmo quando dele
dependente, é chamado de arrogante, egoísta, safado, espertalhão ou falso.
"Falso", porque
não aceita a nossa falsidade com ele e só admite afeto com troca e respeito
pela individualidade. O gato não gosta de alguém porque precisa gostar para se
sentir melhor. Ele gosta pelo amor que lhe é próprio, que é dele e ele o dá se
quiser.
O gato devolve ao homem a
exata medida da relação que dele parte. Sábio, é espelho. O gato é zen. O gato
é Tao. Ele conhece o segredo da não-ação que não é inação. Nada pede a quem não
o quer.
Exigente com quem ama,
mas só depois de muito certificar-se. Não pede amor, mas se lhe dá, então ele
exige.
Sim, o gato não pede
amor. Nem depende dele. Mas, quando o sente, é capaz de amar muito.
Discretamente, porém sem derramar-se. O gato é um italiano educado na
Inglaterra. Sente como um italiano mas se comporta
como um lorde inglês.
Quem não se relaciona bem
com o próprio inconsciente não transa o gato. Ele aparece, então, como ameaça,
porque representa essa relação precária do homem com o (próprio) mistério. O
gato não se relaciona com a aparência do homem. Ele vê além, por dentro e pelo
avesso. Relaciona-se com a essência. Se o gesto de carinho é medroso ou
substitui inaceitáveis (mas existentes) impulsos secretos de agressão, o gato
sabe. E se defende do afago. A relação dele é com o que está oculto, guardado e
nem nós queremos, sabemos ou podemos ver. Por isso, quando surge nele um ato de
entrega, de subida no colo ou manifestação de afeto, é algo muito verdadeiro,
que não pode ser desdenhado. É um gesto de confiança que honra quem o recebe,
pois significa um julgamento.
O homem não sabe ver o
gato, mas o gato sabe ver o homem. Se há desarmonia real ou latente, o gato
sente. Se há solidão, ele sabe e atenua como pode (ele que enfrenta a própria
solidão de maneira muito mais valente que nós). Se há pessoas agressivas em
torno ou carregadas de maus fluidos, ele se afasta. Nada diz, não reclama.
Afasta-se. Quem não o sabe "ler" pensa que "ele não está
ali". Presente ou ausente, ele ensina e manifesta algo. Perto ou longe,
olhando ou fingindo não ver, ele está comunicando códigos que nem sempre (ou
quase nunca) sabemos traduzir.
O gato vê mais e vê
dentro e além de nós. Relaciona-se com fluidos, auras, fantasmas amigos e
opressores. O gato é médium, bruxo, alquimista e parapsicólogo. É uma chance de
meditação permanente a nosso lado, a ensinar paciência, atenção, silêncio e
mistério. O gato é um monge portátil à disposição de quem o saiba perceber.
Monge, sim, refinado,
silencioso, meditativo e sábio monge, a nos devolver as perguntas medrosas
esperando que encontremos o caminho na sua busca, em vez de o querer preparado,
já conhecido e trilhado. O gato sempre responde com uma nova questão,
remetendo-nos à pesquisa permanente do real, à busca incessante, à certeza de
que cada segundo contém a possibilidade de criatividade e de novas
inter-relações, infinitas, entre as coisas.
O gato é uma lição diária
de afeto verdadeiro e fiel. Suas manifestações são íntimas e profundas. Exigem
recolhimento, entrega, atenção. Desatentos não agradam os gatos. Bulhosos os
irritam. Tudo o que precise de promoção ou explicação, quer afirmação. Vive do
verdadeiro e não se ilude com aparências. Ninguém em toda natureza aprendeu a
bastar-se (até na higiene) a si mesmo como o gato!
Lição de sono e de
musculação, o gato nos ensina todas as posições de respiração ioga. Ensina a
dormir com entrega total e diluição recuperante no Cosmos. Ensina a
espreguiçar-se com a massagem mais completa em todos em todos os músculos,
preparando-os para a ação imediata. Se os preparadores físicos aprendessem o
aquecimento do gato, os jogadores reservas não levariam tanto tempo (quase 15
minutos) se aquecendo para entrar em campo.
O gato sai do sono para o
máximo de ação, tensão e elasticidade num segundo. Conhece o desempenho preciso
e milimétrico de cada parte do seu corpo, a qual ama e preserva como a um
templo.
Lição de saúde sexual e
sensualidade. Lição de envolvimento amoroso com dedicação integral de vários
dias. Lição de organização familiar e de definição de espaço próprio e
território pessoal. Lição de anatomia, equilíbrio, desempenho muscular. Lição
de salto. Lição de silêncio. Lição de descanso. Lição de introversão. Lição de
contato com o mistério, com o escuro, com a sombra. Lição de religiosidade sem
ícones.
Lição de alimentação e
requinte. Lição de bom gosto e senso de oportunidade. Lição de vida, enfim, a
mais completa, diária, silenciosa, educada, sem cobranças, sem veemências, sem
exigências.
O gato é uma chance de
interiorização e sabedoria posta pelo mistério à disposição do homem."